Criatividade abundante

27/05/13 Hermano Vianna

A polêmica sobre a “escrita não criativa” ou “uncreative writing” faz mais sentido nos EUA. Lá é a terra que inventou os programas de “creative writing”, hoje bem estabelecidos na maioria das universidades locais. Não tenho os dados atuais, mas segundo artigo de Louis Menand publicado em 2009 na revista “New Yorker”, naquele ano havia 822 cursos de escrita criativa (37 deles ofereciam também PhD), um grande aumento se comparados com os 79 de 1982. Muitas celebridades da literatura aí tiveram sua formação acadêmica. Por exemplo: John Irving, Ken Kesey, Michael Chabon, Richard Ford, Rick Moody, Tama Janowitz, Mona Simpson etc. Isso sem falar nos milhares de professores e, principalmente, de estudantes desconhecidos que escrevem em todas as mídias (ou os que trabalham como roteiristas de séries de TV, saturadas daqueles diálogos afiados). É muita abundância de criatividade. Tanta que tinha que gerar reação contrária também poderosa.

Como denuncia o antropólogo Daniel Miller sobre os efeitos colaterais da exigência de criatividade indumentária na Londres contemporânea (sampleio o trecho de “Trecos, troços e coisas”, livro esperto sobre “cultura material” a ser publicado em breve no Brasil pela Zahar): “A situação é cheia de irônicas contradições: liberdades que criam ansiedades, empoderamento que parece opressivo, individualismo que leva à conformidade.” Diante disso, a personagem da canção “Artists only”, que a banda Talking Heads — formada por ex-estudantes da criativérrima Rhode Island School of Design — lançou em 1978, já se revoltava, repetindo várias vezes no refrão: “Eu não tenho que provar que sou criativo!” Tinha razão para se estressar: criatividade cansa, ou enjoa.

Penso nisso sempre que leio qualquer resenha sobre disco de hip-hop ou rock indie no site (entre milhares de outros) da revista “Fader”. Suas poucas linhas concentram jogos de palavras caprichados, referências eruditas ao lado de comentários sobre banalidades, um senso de observação e produção de “links” inusitados impressionante. E a escolha das palavras: todos os autores trabalham com o thesaurus (não temos bons em português, aquele dicionário de “ideias afins” é muito difícil de usar) ligado em máxima potência. Mas outro dia tive overdose de criatividade quando cheguei ao final da crítica de Anthony Lane do filme “Spring breakers” de Harmony Korine. Sei que Lane é inglês, formado no venerável Trinity College, de Cambridge. Programas acadêmicos de escrita criativa só cruzaram o Atlântico nos anos 1970 (Malcolm Bradbury, fundador do primeiro curso britânico, comparou essa invenção americana ao hambúrguer). Porém, Lane já escreve para a “New Yorker” desde o tempo da Tina Brown e certamente foi contaminado pelo vírus criativo ianque.

Então vamos à tal crítica-overdose. Fiquei me contorcendo de inveja ao terminar o primeiro parágrafo. Como gostaria de ter criatividade para escrever esta oração (peço já desculpas pela minha tradução não criativa): “A música é do Skrillex, que criou baladas afetuosas como ‘Bangarang’ ou ‘Kill everybody’, e o esquema de cores, abarrotado de rosas explosivos e tangerinas oníricas, faz Matisse parecer Giacometti.” O segundo parágrafo contém pelo menos duas pérolas eternamente citáveis como uma fala de peça de Oscar Wilde. A primeira: “Se você pode ser um enfant terrible com 40 anos é questão para debate. No entanto, desde a idade de 19, quando escreveu o roteiro para o perturbador ‘Kids’ de Larry Clark, Korine tem se devotado ao necessário, mesmo que às vezes cansativo, business da provocação.” A segunda: “O outsider entrou para o mainstream ou ele simplesmente reconheceu que é o melhor lugar, ou mais tolo, para dar uma pool party?” E assim vai, por mais oito longos parágrafos, uma frase matadora atrás da outra.
Texto assim tão exibido (como são exibidas as conversas de seriados “de qualidade”, sempre a nos lembrar: por aqui passou um roteirista formado em escrita criativa) cada vez mais frequentemente produzem resultado estranho na cabeça do leitor: em vez de encantamento, sentimos tédio; em vez do “business da provocação” nos deparamos com o “business da criatividade”. Por isso, os não criativos, como Ken Goldsmith, preferem o tédio autêntico, efeito de escrita realmente chata. Ou críticos como Marjorie Perloff percebem trabalho mais pessoal nas obras de gênios não originais.

Bom pensar essas coisas quando, como já celebraram Wisnik e Caetano por aqui, temos Leminski bombando na lista de livros mais vendidos no Brasil. Sua poesia sempre flertou, em estilo personalíssimo, com a não originalidade, o sumiço, a diluição. Até só restar o charme.

* Hermano Vianna é antropólogo e pesquisador cultural

** Publicado originalmente no jornal O Globo

Share Button