Música: mercado em evolução

04/02/13 Raul Perez

Uma matéria sobre Pena Schmidt no jornal O Estado de S. Paulo, há alguns anos, trazia no título o predicado “o advinhador de sucessos”. Responsável por produzir diversos artistas e eventos que marcaram a história da música nacional –  Os Mutantes e o emblemático Free Jazz Festival estão na lista -, Pena dedicou boa parte de sua vida a estudar e por em prática seus conhecimentos sobre música e mercado.

Foto: GrantPassou por majors (grandes gravadoras) e comandou o selo independente Tinitus.  Hoje, o produtor atua como consultor e pesquisador do Itaú Cultural, “desenvolvendo novas possibilidades para o fomento e difusão da cultura e música”, como ele mesmo descreve em seu perfil no LinkedIn.

Nesta entrevista, concedida por e-mail, Pena fala sobre o novo momento do mercado, menos centralizado e mais independente, e suas impressões acerca de onde tudo isso vai parar ou, melhor, para onde tudo vai evoluir.

 

Empreendedores CriativosA chegada do Tecnobrega ao mainstream reforçou a ideia de mercados locais, geridos por produtores regionais. O papel das majors nessa situação é diferente do que era na década de 90. Como elas participam dessa cadeia produtiva?

PS - As majors, em pleno ciclo final, tentam surfar as últimas ondas de produtos de massa. Há um circuito fechado e bem apertado, que depende de execução maciça nas rádios populares movida a jabá e recuperação do investimento via ECAD, para impulsionar alguns produtos de venda vegetativa, sem grandes explosões, de gêneros como o sertanejo e religiosos. Todos os outros departamentos disputam espaços reduzidos em nichos como a venda de CDs online, downloads e livrarias. As majors tentam interceptar artistas emergentes, há rumores de Gaby Amarantos indo para uma grande gravadora, mas a capacidade das majors gerarem algum tipo de venda de artistas urbanos hoje é quase nula. Os mercados regionais e das tribos, por seu lado, crescem para os lados e se aprofundam, na medida em que seus participantes aprendem a gerir os negócios, descobrem as receitas vindas da venda do vinil e do CD nos shows, capitalizam nas lojas digitais gringas e com os recursos colaterais, de licenciamentos e trilhas. Tudo isso é muito fragmentado e se desenvolve rizomaticamente. Alguns comerciantes tem posição forte, como os donos do forró, do arrocha e do calipso, dominando a cadeia de ponta a ponta, regionais e segmentados.

 

ECO surgimento desses mercados locais acontece de forma vertical, conscientemente organizada, ou horizontal, com vários focos que se unem em determinado momento?

PS – Não há polarização ou modulação em conjunto, por não termos em cena fatores de alinhamento, da forma como atuaria uma política de incentivo eficaz, como foi o “Disco é Cultura” dos anos 70/80, que injetou milhares de artistas brasileiros no mercado, impulsionados pelas vendas de discos internacionais que asseguravam recursos para serem investidos em gravações brasileiras, mediante desconto do ICM [Imposto sobre Circulação de Mercadorias] a pagar.

Da mesma forma, não temos mais uma imprensa capaz de gerar interesse ou emoção na disputa entre gêneros e artistas pela atenção do público. A crítica musical, capaz de inflamar a discussão, desapareceu. Restou o assessor de imprensa, que não é mais jornalista, pautando a cota de espaço destinada à “música”. E programas programados de calouros na TV.

O mercado, balcanizado em canais que se entredevoram, fica exatamente do tamanho do alcance de cada artista, não há mais um mercado de massa, pronto e preparado para ser ocupado. De vez em quando há uma coagulação em torno de alguma tag em comum, como “os artistas do Pará”, que podem viajar juntos no mesmo avião, mas normalmente virão tocar para públicos diferentes.

Porém, a incerteza e a indefinição própria do pop de hora em hora faz acontecer um sucesso universal, como o Gangnam do Psy, ou o Teló, só para desmanchar as hipóteses do fim do publico de massas.

 

ECQuais são os elementos necessários para que um mercado local consiga ser autossustentável?

PS – Quando for eleito farei um rio para cada ponte. E algumas leis que consigam recriar um ecossistema de muitos pequenos palcos nos bares, palcos nas escolas abertos para bandas e conjuntos, coretos nas praças, teatros nos bairros, para peças e para música, fomento e isenção de impostos para todos os negócios que servem às artes performáticas, os estúdios de gravação e ensaio, os luthiers, as lojas de instrumentos musicais, firmas de luz, som e cenografia etc etc. Abriria 100% do espaço da TV e rádios públicas para a produção local, com programação repetindo músicas que os ouvintes estejam pedindo. Artistas, que assim se declarem e que tenham a arte como ocupação principal, deveriam receber salário básico, podendo se manifestar usando todas as oportunidades que apareceriam neste ecossistema e não dependendo de venda de produtos ou intermediarios para viver. Ou seja, autossustentável só com a infraestrutura do poder público dando um reforço que um dia foi da indústria. O mercado das cópias, o privilégio das cópias, desapareceu e jamais teremos uma “indústria fonográfica” de novo, mas queremos arte como queremos saúde, transporte e educação, que também são autossustentados com a infra do poder público dando uma escora. Nada de errado nisso.

 

ECA internet foi uma ferramenta importante na construção do mercado da música do Pará?

PS - A internet foi importante para tudo que acontece hoje, mas no Pará, a mão invisível foi do poder público, através da Secretaria de Comunicação do estado, que administrava a rádio e TV Cultura que promovia intensamente os artistas locais, anos a fio, gerando sucessos populares e carreiras artísticas. O Terruá Pará, que estreou no Auditório Ibirapuera como produto de exportação, coroou o processo, que foi interrompido por quatro anos e retomado plenamente. O interessante é notar que o Pará promove todos os gêneros indistintamente, basta ser local, e para isso, usa todas as boas práticas dos RPs [relações públicas] e divulgadores da velha indústria. Eu disse as boas práticas!

 

ECVocê arriscaria apontar algum movimento com a mesma força prestes a estourar no Brasil? Qual?

PS - O Fora do Eixo seria o grande movimento hoje, capaz de sincronizar o Grito Rock em centenas de cidades; estruturar uma rede com uma centena de festivais; um software de encontro entre milhares de bandas e promotores, o Toque No Brasil, fundar uma universidade das culturas mais toda uma plataforma político-sócio-cultural e capazes ainda de angariar muitos inimigos públicos. Problema nosso. Mal acostumados com revoluções anteriores, que movimentaram as multidões de música em música ou de um estilo para outro, agora mal percebemos que o Fora do Eixo é o equivalente cultural e artístico da ascensão das megamultidões ao consuminato. Milhares de jovens se declaram artistas e viajam pelo Brasil, tocando quase de graça, descobrindo o país e sendo felizes, muito agradecidos pela oportunidade. Não faz o menor sentido para quem se orienta pelas normas do mercado, mas esta é a nova realidade da economia colaborativa, onde sua reputação vale mais do que sua lábia de vendedor, coisas que a internet nos trouxe. A grande revolução é permanecer fora do mercado. E estourar é fazer tudo isso e não ter patrimônio nem lucro.

 

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