Empreendedor 24 horas

08/03/13 Raul Perez

Foto: Barbara WilliTodos os dias, Marcella Monteiro de Barros sai de sua casa nas proximidades da Avenida Rebouças, na zona Oeste de São Paulo, às sete da manhã. A primeira atividade do dia varia entre a ginástica e um café da manhã com um integrante de um dos vários projetos dos quais ela faz parte.

Volta pra casa, arruma-se e pega a bicicleta para fazer um percurso de cerca de 20 minutos até o escritório onde trabalha na Vila Olímpia. Às nove, dá início à jornada na Endeavor, organização internacional focada em empreendedorismo, onde coordena o maior evento internacional sobre o tema – a Semana Global do Empreendedorismo.

Na hora do almoço, ela aproveita para encontrar um amigo e bater-papo. Durante metade do tempo. A outra metade é gasta com discussões sobre os tais projetos “paralelos”. Ela explica que, como grande parte dos amigos também está envolvida com algumas das iniciativas que ela participa ou coordena, é possível fazer essa divisão. São 11 horas trabalhando pela Endeavor, cerca de 600 e-mails respondidos por dia. Quando retorna à casa onde vive com o marido, por volta das oito da noite, Marcella  ainda arranja tempo para uma reunião via skype.

A entrada de Marcella no “mercado de trabalho” foi aos 20 anos, como estagiária de um escritório de advocacia. Trabalhou lá por cinco anos e um belo dia resolveu mudar. Não por falta de compatibilidade com o ofício, mas para se tornar uma agente mais ativa na transformação social que ela queria ver no mundo.  Atualmente, além do trabalho na Endeavor, ela é diretora do Comitê de Responsabilidade Social de Jovens da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), membro do Conselho Curador da Fundação Dorina Nowill Para Cegos e membro do Conselho  do  Instituto Brasis, entre outras atividades.

O cotidiano de Marcella é representativo de uma tendência que vem sendo estudada mais intensamente nos últimos anos. A tecnologia pode ter ajudado a ampliar o poder de reverberação e de conexão entre esses novos empreendedores, mas a principal mudança é a ideia de que trabalho e realização pessoal podem (e devem) ser conjugados juntos, como afirmou Marcella em artigo para a revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios.

Um famoso estudo feito pela agência de tendências Box 1824 no ano passado, o “All work and all play”, traçou um perfil de comportamento desses jovens. Além de dissolver a linha que separa trabalho e paixão, os millenials, como é denominada essa geração, estão interessados em agregar conhecimento, mais do que em altos salários ou promoções; não precisam de muito mais do que um notebook para conseguir dar pelo menos o primeiro passo em um negócio e se dedicam a esses projetos quase que integralmente.

Paixão - William Hertz tem sua própria agência de marketing, a apis3, fundada em 2011 com o irmão e sócio Douglas Hertz. E é ao empreendimento que ele direciona grande parte de sua energia.

Atuante em agências de publicidade e consultorias de branding, com um Leão de Prata de Cannes no currículo, o empresário criou o negócio a partir do anseio de aliar estratégia e resultado para seus clientes.

De lá para cá foram muitas horas de suor e dedicação para conseguir consolidar a empresa no mercado. Nesses dois anos, a apis3 trabalhou para mais de 60 clientes, entre eles o Google, Serasa Consumidor, Vivo e Grupo Fleury.

Atualmente, Hertz dorme de quatro a seis horas por noite e, quando preciso, dedica seus finais de semana a resolver questões da agência. De acordo com a metodologia de trabalho da sua empresa, é preciso partir de um propósito para se chegar ao lucro.

“É uma visão bastante romântica mesmo de ‘eu acredito e posso contribuir com o mundo que eu quero construir por meio do meu trabalho. Mas como é que eu posso me sustentar até lá?’”, disserta. “É preciso tornar rentável algo em que eu acredito.”

Recente reportagem do jornal norte-americano New York Times fez um mapeamento da posição de jovens de 20 e poucos anos no mercado. O saldo foi: paga-se pouco, trabalha-se muito.  E o principal fator que faz com que eles aceitem essa condição é o que a matéria chama de capital cultural –  a experiência, o conhecimento que cada projeto, função ou serviço pode agregar à sua vida.

“Pra mim não faz o menor sentido ter minha subsistência atrelada a algo que não tem a ver com meu propósito de vida. Todas as iniciativas que eu participo estão ligadas a experiências afetivas e que me cedem mais ferramentas para eu lidar com meus projetos”, explica Marcella.

Ônus - “A não aquietação da mente”, afirma a empreendedora social quando perguntada sobre os pontos negativos de lidar a integralidade do tempo com suas paixões. “Você fica tão acelerada que não existe mais divisão e suas relações pessoais ficam um pouco defasadas. Você concentra sua energia no trabalho e acaba esquecendo um pouco o que está a sua volta”. Assim passam aniversários de parentes, festas de amigos e por aí em diante. ”Tem um custo físico. A alma tá sempre no céu, mas o corpo está um pouco exaurido”, diz.

“Você tem que lembrar que além de ser um profissional, você é uma pessoa e é importante ser uma pessoa mais interessante e mais capacitada. Isso quer dizer que tem que existir uma vida pessoal. Tem que ir no cinema, viajar, conversar com as pessoas”, aconselha Hertz. “É ter uma vida profissional dentro da pessoal e não o contrário.”

O tempo parece ser o maior insumo para essa geração de jovens empreendedores, com muita bagagem e um número equiparável de ideias. Como lidar com ele, talvez seja o maior desafio.

Mas os empecilhos geram aprendizados. ”Meu maior desafio atualmente é dizer não”, desabafa Marcella, que já não pode se dedicar tanto quanto gostaria a todos os projetos que pedem sua participação. “Aprendi que existe um ‘não’ no budismo que é um ‘não amoroso’ que é um ‘não, não posso ajudar você agora, mas vou poder mais tarde’, ou um  ’não posso, mas conheço alguém que pode’”, explica.

Para William, o grande obstáculo é estar “desconectado” por alguns minutos ou horas. Mas ele afirma já ter entendido a solução: “Preciso ser acessível, mas não estar disponível o tempo todo.”

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